Luna F – Parte 2

OrtoLongitudional Atra VÉrtice era o significado da sigla do portal que Akeila seguia em direção. Já estava a salvo das edificações mórficas em que estara agora a pouco. Sua máquina deu sinal de fraqueza, seu motor secundário acabara de desativar e ela resolveu avisar o Mercador sobre o ocorrido. Tirou do bolso de seu shorts preto fosco um pequeno objeto leve de forma elíptica que se iluminou ao ser segurado e, com uma certa leveza, passou o dedo indicador sobre um símbolo ao centro do mesmo. Nesse momento o objeto pairou sobre sua mão dilatando em diversas direções ateh formar um círculo um pouco maior e após isso apareceram displays holográficos como botões e indicadores, todos em torno de uma área que geraria a representação virtual de um intelecutor. Akeila disse rapidamente “MERCADOR POS3” indicando a quem deveria fazer a chamada e sua localização, no caso em sua velha loja real. Após alguns instantes os botões e os indicadores moveram-se aumentando o circulo e no meio foi sendo gerada uma imagem da parte inferior a superior colorida, porém com alguns chuviscados. Era o Mercador atendendo a ligação.

– Fala mocinha. – disse com sua voz metalizada característica.
– Odeio quando você me chama assim…
– Hahaha… Achei que você e Massive Drake chegariam cedo aqui.

Akeila deu uma rápida olhada num indicador de tempo. 27h02m89s.

– Bem, tivemos um pequeno atraso, – disse do jeito que alguém fala bocejando e coçando a barriga – de qualquer forma estamos bem, só me envie uma aspirina1. Ativei o localizador da FlowCicle, algumas avarias… Seu motor de emergência finalmente foi usado… Estamos indo para o portal OLAVE, mais tarde te avisamos de algo, ok??
– Hum, tão jovem e já se achando que pode tudo né? OK, veja lá o que vai aprontar… Até mais.

Ao virar numa esquina a poucos metros da entrada do portal sentiu sua perna num formigamento intenso, uma sensação de calor insuportável e em seguida um frio intenso igualmente insuportável. Era a aspirina agindo, enviada pelo link do comunicador de Akeila a um módulo médico que ela havia prendido junto a sua ferida. Um homem-letreiro viu a careta que ela fez quando o efeito a martelou e sua feição de alívio ao sentir sua perna em boas condições. O homem-letreiro fazia propaganda de vários acessórios de uso doméstico, todos talhados em neon frio em seu corpo pouco musculoso, porém volumoso. Akeila não deu atenção e prosseguiu seu caminho.

A entrada do portal era guardada por um Herittar de 2,5m de altura por 1,3 de largura, sua cara feia e fechada a todos que gostariam de usar o portal. Na verdade, sua função era garantir que certos indivíduos não fossem a Luna A. Esse satélite era um dos poucos lugares respeitáveis por perto de Tera e, pela sua coloração que variava do branco ao marrom e de suas praças de alimentação repletas de lagos de água artificial das mais diversas cores, era considerável que as castas mais ralés não passassem nem por perto de vários turistas intergalácticos que nem imaginariam em pisar no planeta mas adoravam saborear alguns frutos do cultivo autoalimentar. Aliás, não era o único modo de se chegar a Aerol, mas era o único modo gratuito de se o fazer, uma vez que vários funcionários de lá não podiam pagar transportadores todo dia para ir trabalhar. Akeila obviamente nem por longe não parecia com qualquer funcionário de lá e nem havia jeito de se persuadir um herittar. Esta espécie era cultuada por sua magnânima inteligência muscular, ou seja, além de muito fortes, seus músculos poderiam prever ocasiões instantes antes delas acontecerem. Parou para pensar uns instantes. Não lembrara de nenhum algoritmo que poderia tentar utilizar para passar desapercebida pelo guardião, até que teve uma espécie de estalo mental, uma idéia que poderia dar certo e já sentia que estava o fazendo, porém ao perceber um som forte e uns grunhidos irritantes avistou Massive Drake em cima dos restos de um segmentador a toda velocidade e se chocando no herittar, que pelo choque abriu brecha o suficiente para Akeila passar.

– Como sabia o que estava pensando? – Akeila perguntou entusiasmada enquanto corria com Massive Drake.
– Sabia o que? Eu apenas sabia que não poderia passar pela guarda, então resolvi me chocar com ele.
– Ué…

O corredor era estranhamente estranho. Embora suas paredes formacem ângulos de 90° a cada duas, suas luzes davam a impressão do mesmo se extender ao infinito e ser de formato circular. Era completamente escuro e as luzes giravam a cada intervalo de uns 5 metros umas das outras, ora azuis ora violetas. De repente caíram num buraco que dava a impressão de ainda estarem no mesmo corredor, as luzes continuavam infinitas e circulares, porém sentiam seu peso ser carregado para baixo com mais velocidade a cada momento. Segundo o neurobot, era para “saborear a não vista da viagem”. O tal buraco era um vértice de dezenas de kilomêtros que no momento certo chegaria ao outro lado, ou seja, em Luna A. Akeila sentiu seu calçado ser desgarrado de seu corpo, juntamente com seu shorts, sua regata e suas roupas íntimas (que no momento era somente sua calcinha), porém ainda estava tudo no lugar. Ficou branca ao não mais sentir seu pés e uma sensação de inceneração instantânea percorreu seu corpo até um clarão esmagar seus olhos em borbulhas de sangue e cores inexistentes, cada molécula de seu corpo separada porém juntas ao mesmo tempo, viajando por todo o universo como se o mesmo não fosse mais atingido pelas ondais temporais de uma dimensão qualquer e, no mesmo instante, uma grande muralha se materializando bem diante de seus – que deveriam ser – olhos, cada fragmento se juntando e formando a parede sólida e áspera que percorria umas distância inigualável e sem mais nem menos, o foco num objeto de algum material resistente, mal tratado pelo tempo, arranhado e com tinta raspada grudado na muralha sem fim. Tentou alcançar com o que parecia ser sua mão, as moléculas sendo arrastadas de um lado ao outro, seguindo o movimento e se espatifando no material, como se tentassem penetrar no mesmo, mas somente conseguindo repousar sobre o mesmo.

– Akeila, por que você está segurando meu pé???

Estavam em Luna A.

] ] CONTINUA [ [

¹ ASPIRINA: Nome genérico dado a algum tipo de medicamento de reparo corporal. Aplicação em doses pequenas e localizadas era a forma mais comum de utilização, porém em casas especializadas em recuperação corporal total, haviam cilindros com o líquido viscoso em que pessoas podiam ficar até meses em suspensão para regerenação. Eram microorganismos encontrados em distantes galáxias e seu nome se dá simplesmente por falta de criatividade mesmo por parte de seus descobridores da lendária Terra.

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